7 lições de Marketing que o Wrestling me ensinou

Matriz BCG Marketing

7 lições de Marketing que o Wrestling me ensinou

7 lições de Marketing que o Wrestling me ensinou 1240 700 Bruno Brito

Há 15 anos atrás, o Marketing estava longe de dominar a minha vida – existia algum interesse, muito devido aos duelos entre a Sega e a Nintendo, mas o fascínio real só me surgiu bem perto dos 18 anos. Ainda assim, não estava em 1º na minha lista de “profissões a seguir”.

O que queria realmente era tornar-me lutador de Wrestling.

Ao concluir os exames nacionais do 12º ano, o Marketing pareceu-me a opção certa – gostava imenso de marcas e identificava-me com as disciplinas. No entanto, era encarado por mim como uma segunda opção, uma espécie de plano B, não fosse o Wrestling falhar. Nunca se sabe o que pode acontecer quando se segue uma carreira desportiva – podemos nunca ter a oportunidade certa de brilhar, podemos lesionar-nos ou podemos simplesmente perder o interesse. Felizmente, tive na altura o bom senso de terminar pelo menos a licenciatura antes de tentar a minha grande paixão.

Olhando agora para trás, fico muito contente por ter escolhido Marketing – e muito feliz por ter seguido o meu sonho de treinar na melhor escola de Wrestling do mundo, a Storm Wrestling Academy, no Canadá.

O que não contava é que Wrestling e Marketing tivessem tanto em comum.

À primeira vista, esta afirmação pode parecer algo descabida – e provavelmente será difícil alguém entender a 100% o paralelismo, a não ser que pise a alcatifa do escritório à semana e a lona do ringue ao sábado e domingo.

Ainda assim, vale a pena tentar.

Lição #1: A equipa é tudo

Quando voltei do Canadá, em 2007, o panorama nacional de Wrestling não estava muito desenvolvido. Não existia propriamente uma escola, lutadores competentes ou um palco para brilharem.

Por esse motivo, começámos um projecto, o WrestlingPortugal.

O logotipo WP Wrestling Portugal

O WP começou como uma academia de Wrestling aos fins-de-semana que num par de anos formou talento suficiente para realizar alguns espectáculos ao vivo. A marca ganhou forma rapidamente, alcançando destaque nos canais Video On Demand da ZON e da MEO, aparecendo no festival Alive enquanto iniciativa da Optimus e beneficiando até de alguma exposição mediática.

Entre outras responsabilidades no WrestlingPortugal, fui treinador da academia durante 7 anos. Neste departamento, a minha missão era “simples”: formar talento. Por muito bom professor que pudesse ser, o sucesso desta missão não dependeria de mim – foi graças à qualidade dos alunos (e à competição saudável que souberam criar) que se alcançou aquela que será provavelmente a “geração de ouro” durante muitos e bons anos no Wrestling nacional (good job boys!).

De pouco nos serve sermos muito bons se estivermos a remar sozinhos contra a maré; no WP, tive a felicidade de conhecer muita gente fascinante, capaz de desafiar os seus próprios limites e com a motivação necessária para elevar a fasquia semanalmente. Todos os treinos mostravam mais fome e ambição – tornando o meu trabalho bem mais fácil.

Poderia ser o melhor lutador do mundo, mas o WP não seria nada se não tivesse um plantel à altura. O mesmo se pode aplicar, obviamente, a qualquer equipa de Marketing.

Lição #2: Todos têm o seu lugar

Num espectáculo de 3 horas, é difícil cativar o público se apresentarmos o mesmo tipo de acção durante todo esse tempo. O Wrestling é, sobretudo, um espectáculo de variedades. As pessoas não vêm todas ao mesmo.

Um espectáculo do WP em Queluz

Enquanto lutador, rapidamente entendi a importância de alcançar um USP, ou Unique Selling Proposition. Num show, temos de pensar nos fãs hardcore de Wrestling que querem ver um combate altamente atlético, mas não podemos ignorar as pessoas que pagaram bilhete para ver alguma comédia, lutadores muito pesados ou muito leves, personagens extravagantes ou lutas dentro de jaulas ou cadeiras.

O desafio, em teoria, não é complicado: olhar para o balneário, pensar o que posso trazer de único ao meu combate face aos restantes e fazer o possível e o impossível para me diferenciar.

Da mesma forma que 10 ou 20 lutadores podem alcançar um posicionamento único num espectáculo, também as marcas podem ser bastante diferentes mesmo se actuarem numa indústria com muitos players. De certa forma, apesar de todos competirem uns com os outros para aparecerem no espectáculo, quanto maior a diferenciação de um Wrestler face aos restantes, menor concorrência terá – tal como qualquer outra marca.

Lição #3: Gerir lutadores não é diferente de uma Matriz BCG

Não é preciso criarmos a nossa própria federação para compreender que no Wrestling nenhum lutador tem a sua posição garantida. O mercado é dinâmico e a gestão de produto é incrivelmente similar à de qualquer outra marca.

A matriz BCG

Se a popularidade de um lutador está a subir (Estrela), é natural que este comece a ganhar tempo de antena nos espectáculos e vença mais combates. Se um lutador já está estabelecido (Vaca Leiteira), pouco importa se vence ou perde com frequência, sendo a sua principal função gerar bilheteira e elevar os produtos Estrela com alguma regularidade. Ainda assim, terá de ser protegido ocasionalmente, para se manter nessa posição.

Naturalmente existem sempre alguns Dilemas (aqueles lutadores que parecem promissores mas que ainda não garantem que tragam dinheiro à companhia) e claro, os Abacaxi, aqueles que se encontram em final de carreira ou que simplesmente já tiveram o seu auge e estão agora perto de irrecuperáveis.

Todos estes são termos familiares para quem frequentou uma escola de Marketing.

Lição #4: A job description pouco importará

No escritório, é frequente ver pessoas a espernear quando surge uma tarefa “que foge à job description” – seja por se tratar de algo que escapa ao nosso domínio, seja por ser aborrecida ou simplesmente porque “não foi para isto que me contrataram”.

Reunião no Escritório

Quando comecei no Wrestling, o meu sonho era simplesmente ser um lutador; chegar à arena, ouvir como me pretendiam usar nesse dia, fazer o meu trabalho no ringue e repetir no dia seguinte.

A vida real foi bem diferente: criar sites, planos de negócio, academias, vídeos, newsletters, distribuir flyers ou vender merchandise não constava nas minhas funções, mas fizeram parte da viagem. A transição para a vida de escritório nunca foi muito complicada por este motivo. A verdade é que para ser Wrestler é preciso algum espírito empreendedor; por maior união que haja, compete a cada um brilhar e impressionar a sua audiência de qualquer forma que consiga.

No escritório, a nossa capacidade de resolver problemas é cada vez mais testada, independentemente da nossa formação. Pouco importa se aprendemos a fazer determinada tarefa na escola quando estamos à distância de uma pesquisa no Google ou de um tutorial do YouTube para obter a resposta.

Lição #5: O segredo está em esconder as fraquezas

No meu percurso (e como referi em cima), tive a oportunidade de fazer muitas coisas fora do ringue, algumas que não tinha sequer sonhado que seriam possíveis. Uma delas (que também não estava na job description) foi comentar Wrestling semanalmente para a SportTV, durante 2 anos e meio.

No produto que comentei (TNA Impact Wrestling), várias foram as vezes em que assisti a erros por parte dos atletas. Obviamente não poderia comunicar esses acidentes à audiência (alguns apenas visíveis a quem está realmente por dentro) e, como solução, fiz aquilo que qualquer comentador de Wrestling faz: contrapor realçando os pontos fortes de cada personagem.

Poucos são os lutadores completos – uns são bons no ringue, outros têm um excelente look e outros são personagens fantásticas. Em alta competição encontramos os 2 factores combinados com frequência, mas raros são os momentos em que encontramos alguém que seja completo a todos os níveis. Esses, geralmente, entram para a história.

Os 3 factores críticos no Wrestling

A forma de disfarçar estas limitações? Contar uma história totalmente à volta dos pontos fortes do lutador.

O mesmo se aplica quando estamos no balneário a combinar o combate com alguém; não vamos expor as suas limitações junto ao público, visto que não ganharíamos nada com isso.

O Wrestling é sobretudo um espectáculo onde se esconde as fraquezas uns dos outros.

Se o nosso colega ficar mal visto numa actuação, só há 2 conclusões possíveis:

  • ele ganha e nós, que perdemos, ficamos mal vistos na fotografia porque o adversário não era assim tão bom;
  • ele perde e nós, que ganhámos, não conquistamos muito com essa vitória (porque o adversário não era assim tão bom).

No entanto, se ambos os lutadores estiverem ao seu melhor nível, não só o público será o grande vencedor como nenhum dos lutadores sairá realmente da arena a perder.

Todas as marcas têm os seus pontos fracos – da mesma forma que no Wrestling desenvolvemos o storytelling baseado nas nossas forças, o mesmo acontece no Marketing.

Lição #6: É uma maratona, não é um sprint

Esta é uma das minhas fases preferidas e aprendi-a no Wrestling. Quando comecei a preparação para ser lutador, sabia que teria muito trabalho pela frente, mas realisticamente não tinha noção do que me esperava. O mesmo é verdade no que toca aos vários alunos que pisaram o ringue da academia do WP.

Quando começamos a levantar pesos ou a tomar atenção ao que comemos, raramente temos consciência de que aquele ritual nos acompanhará durante vários anos, 7 dias por semana. Os ganhos são lentos e a frustração pode ser grande. É um jogo de paciência.

No ringue, começamos por aprender a cair e a curva de aprendizagem não é simpática nos primeiros tempos, dando direito a muitos erros e a algumas dores. É um jogo de aperfeiçoamento.

Ano após ano, apercebemo-nos que os verdadeiros resultados só surgirão se estivermos nisto a longo prazo.

A vida é uma maratona, não um *sprint*

Depois há todo o percurso que temos de percorrer até nos tornarmos campeões. O sucesso não surge de um dia para o outro e, por muitos que alguns se achem especiais, o Wrestling é um excelente meio para ganhar alguma humildade e perceber que só o trabalho e a consistência nos trarão resultados a longo prazo.

Acredito que foi esse trabalho e essa paciência que me garantiram os títulos de campeão nacional e europeu de Wrestling. Uma disciplina que, depois de adquirida, serve para qualquer hobby ou sonho que queiramos perseguir.

Esta é basicamente uma lição de vida, que se pode aplicar a tudo, pelo que no Marketing as coisas não são diferentes. Da mesma forma que uma marca precisa de tempo (e trabalho) para crescer, não podemos entrar numa empresa a achar que já sabemos tudo ou ficar frustrados por verificar que há muitos procedimentos que temos de interiorizar.

É suposto levar tempo e o simples acto de aparecer aumenta drasticamente as probabilidades de chegar ao destino.

Lição #7: Ouvir o público é a receita para o sucesso

Quando estamos a começar, é normal estarmos mais preocupados com a nossa roupa ou com os golpes do que com o que o público pensa – no entanto, quanto mais rapidamente percebermos que é a audiência que manda, mais rapidamente adaptamos o nosso espectáculo ao que mexe com as emoções dos espectadores.

Obter uma reacção do público, boa ou má, é o objectivo de qualquer lutador. Uma arena barulhenta é também o desejo de qualquer empresa deste ramo. Se escutarmos atentamente, melhor saberemos o que corrigir para o próximo espectáculo e mais perto estaremos de entregar o show perfeito.

O maior evento anual de Wrestling: O WrestleMania

No mundo das marcas, o cenário não é diferente – o consumidor é, na maior parte dos casos, o primeiro a manifestar o que deseja, o que adora e o que despreza. Faz apenas sentido que as marcas se adaptem aos consumidores, em vez de optarem pela via solitária de fazerem aquilo que acham ser o melhor para o seu universo.

Conclusão

Frequentemente digo a amigos que o universo do Wrestling é a melhor escola de Marketing que se pode pedir. Estes são só alguns exemplos – a lista poderia ser bem mais longa – que mostram como lutadores, quando bem geridos, não são muito diferentes de um Macbook Pro ou de um HTC One.

Se o Wrestling é a melhor escola, então a WWE será o melhor case-study. E é por esse motivo que a próxima edição d’O Conteúdo é Rei será precisamente sobre isso!

Fotografia:

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